A expressão “aprendizagem ao longo da vida” surgiu no nosso léxico no século passado. Na verdade, o termo é substancialmente específico, não se referindo a qualquer aprendizagem, em abstrato. Para sustentar essa afirmação, teremos de aferir um ponto de partida: desde que existem seres vivos, que se pode observar algum tipo de aprendizagem, em todo o percurso de vida, mesmo que radicalmente diferente da do Homem. Em particular, quando a evolução das espécies biológicas atingiu o patamar de desenvolvimento de sistemas nervosos, essa aprendizagem foi elevada ao estatuto de sistemática e organizada, ainda que individualmente. Com a organização de algumas espécies em sociedade, essa aprendizagem tornou-se estruturada, socialmente: cada indivíduo beneficiava das aprendizagens dos restantes elementos que com ele conviviam e dos que o antecederam.
Com base nestas premissas, pode-se concluir que a aprendizagem não é exclusiva do nosso tempo. Ela acompanha o Homem, desde que ele o é! Portanto, a questão coloca-se: porque razão surge com tanta insistência, ao nível de decisores políticos, a expressão aprendizagem ao longo da vida? Que diferenças marcam o nosso tempo, relativamente aos anteriores, para justificar esta intenção, organizada socialmente, de a introduzir? A resposta poderá estar, em parte, na comparação entre épocas históricas. Até ao fim do século XIX, as mudanças ocorriam, mas muito lentamente. Raros eram os indivíduos que, no seu período de vida, abandonavam as ferramentas ou os procedimentos a que estavam habituados desde tenra idade.
Linha de montagem de Ford, em 1913. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Henry_Ford
Foto Auteuropa Fonte: https://on-centro.pt/index.php/pt/empresas/item/4489-autoeuropa-anuncia-quebra-de-producao-de-25-em-2020
Iniciando-se, no século XVIII, o domínio progressivo do Capitalismo como sistema económico (e respetivas consequências políticas e sociais), foi-se alastrando, progressivamente, a todo o globo, num processo que apenas terminou no século passado. Com ele, surgiram alterações significativas na estrutura económica, na organização social, nos modos e meios de produção e no desenvolvimento técnico, tecnológico e científico. Esta dinâmica produziu e acelerou novas transformações, e estas introduziram, por sua vez, novas dinâmicas, construindo um ciclo que, no essencial, ainda presenciamos.
Talvez inesperadamente, este ciclo tornou-se, em parte, contraditório consigo próprio. Na origem do Capitalismo, como sistema económico dominante, está a passagem da produção artesanal para a produção em série e, posteriormente, da manufaturação para a mecanização. Ao invés de ser um único artesão a produzir cada peça inteira, um conjunto de operários, cada um executando, de forma repetitiva, apenas uma pequena parte de um ciclo produtivo, construía, em conjunto, o mesmo produto. Apesar de exigir muitos mais trabalhadores, o número de peças produzidas por unidade de tempo era claramente vantajoso. Esta alteração substancial no modo de produção era claramente vantajosa, comparativamente com os antigos modos de produção, com maiores lucros e novas necessidades tecnológicas, e constituiu-se como o motor do ciclo novas dinâmicas introduzem novas transformações. As exigências científicas e tecnológicas que comporta tornaram esse ciclo cada vez mais curto no tempo e vasto nos efeitos.
Assim, na origem da rapidez de alterações a que hoje assistimos – e a consequente imprevisibilidade de procedimentos a desempenhar, por cada trabalhador, no futuro – está a produção em série e em larga escala, com a respetiva introdução de processos repetitivos por cada trabalhador ao longo da sua vida! Sendo este aspeto um pormenor dispensável na reflexão sobre a origem, o papel e a concretização da aprendizagem ao longo da vida, ele encerra em si mesmo uma curiosa ironia – o que justifica este parágrafo.
O desenvolvimento humano atingiu, no século XXI, um ritmo nunca antes visto, nas suas dimensões sociais, tecnológicas, políticas, científicas, produtivas e económicas, dialeticamente ligadas. O surgimento da informática exponenciou essa aceleração. No século XXI, uma máquina do tempo que pudesse deslocar-se 10 anos no futuro daria ao seu passageiro a impressão de ter aterrado num milénio diferente… de tão profundas e estruturais que se tornam as mudanças. Se queremos ser capazes de responder aos desafios que vamos enfrentar – muitos deles, impossíveis de conhecer no presente, devido a este mesmo ritmo de mudança – não podemos ignorar esta caraterística do nosso tempo!
Estamos assim perante uma realidade em que o percurso formativo até à maioridade de cada indivíduo, disponibilizado na Escola tradicional, sendo essencial, não pode ser o único momento em que a sociedade se organiza para desenvolver aprendizagens. Num mundo em que a única constante é a transformação rápida, como se pode responder aos novos desafios? A resposta, de tão simples que é, será desarmante: a Escola tem de se prolongar por toda a vida, permitindo adequar competências e conhecimentos. É assim necessário enraizar a Escola ao Longo da Vida, como instituição que permita, entre outros objetivos, atualizar e aprofundar conhecimentos, desenvolver novas competências, aprender a trabalhar com outras ferramentas ou estudar outras realidades.
A Escola ao Longo da Vida tem assim de se constituir como algo novo: se é verdade que cada indivíduo sempre aprendeu, ao longo da sua vida, a fase que atravessamos tem uma exigência substancialmente diferente. É urgente institucionalizá-la, em programas formativos, centros de formação, abrir as escolas e universidades para todas as idades, construir novos espaços adequados para a vida adulta. É urgente disponibilizá-la a todos os indivíduos e adequá-la a cada momento.
Esta não será uma tarefa simples. Olhando para a História, pode-se perceber a dificuldade: a Escola, como instituição massificada, tem pouco mais de 100 anos, na Europa. Até lá, o acesso a este patamar evolutivo estava reservado às elites e a grupos sociais que viram nele uma ferramenta com enorme potencial. A aprendizagem era quase exclusivamente informal, transmitida por pais ou mestres de ofícios. A realidade atual obriga-nos agora a combater os hábitos enraizados pelos séculos. Desta visão, apenas pode resultar uma conclusão otimista: este grande desafio está a ser enfrentado com sucesso. Mesmo os pessimistas, que afirmarão que esse sucesso é apenas parcial, devem reconhecer que num processo com estas caraterísticas e esta dimensão esse sucesso poderia ser total...
Gosto de pensar que a História é um Gigante, sentado num sofá à lareira, sempre crescendo, que nos observa com um estranho e irónico sentido de humor. Se assim fosse, ele estaria a ver-nos com enorme curiosidade, rindo-se ao de leve por considerarmos que será assim tão fácil vencermos desafios desta envergadura, que contrariam tudo quanto esse mesmo Gigante nos colocou no caminho ao longo destas dezenas de milhar de anos…