O perigo reside na mecanização do gesto em benefício da tecnicidade e da eficácia; a perda da alma do movimento e a ausência de reflexão por falta de tempo; a repetição puramente física, uma orientação sem consciência faria perder o espírito de vigilância, reflexo desta beleza próxima da Perfeição.
(Life and work of Georges Stobbaerts, n.d.)
No início deste blogue dizia que uma viagem interior, se bem sucedida, constrói uma espiral ascendente, o que implica a passagem por pontos semelhantes, embora com visões diferentes, já enformadas pelo crescimento construído nessa viagem. Não fazia a mínima ideia, ao passar essa ideia para o blogue, da forma tão pessoal que tomaria essa espiral… À boleia do tema da Avaliação dos Sistemas Educativos, e na linha dessa espiral, o meu pensamento confluiu numa metáfora desta avaliação, que me é muito cara: a avaliação do Sistema Educativo é uma grande e bela aula de Aikido.
Na minha cabeça, uma metáfora é como uma anedota: depois de dissecadas, perdem a sua beleza. Infelizmente, para efeitos de reflexão, é preciso assumir esse prejuízo.
O Aikido é uma arte marcial japonesa, que corresponde a uma evolução da técnica usada pelos samurais para situações em que estariam desarmados. Traduzido à letra, significa “a via da harmonia com energia”. As antigas artes marciais japonesas, enquanto artes de soldados, são anacrónicas. Muitas das suas disciplinas desapareceram, simplesmente. As que sobreviveram assumiram um duplo papel – de defesa pessoal e de busca pela perfeição interior. Centre-mo-nos nesta última.
Para melhor compreender, fica um vídeo com uma demonstração do Sensei Masamichi Noro, 6.º dan (link na imagem):
Imagem extraída do vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=pNyTSzit19E
Em bom rigor, tratar-se-á de uma demonstração de Kinomichi, arte em movimento criada a partir do Aikido.
Observamos dois indivíduos, que estabelecem uma relação que (aparentemente) um deles determina. Na verdade, a relação é tão determinada pelo praticante que recebe a ação (tori, quem defende), como o que a provoca (uke, quem ataca). Na relação que transpira do vídeo, o uke, figura marcial, é substituído pela figura mais esotérica e filosófica do aite (literalmente, aquele que oferece a mão), que pode ser entendido como quem possibilita o exercício, quem cria a oportunidade para aprender. Na aprendizagem, o aite tem uma das mais difíceis posições – deve medir o tori, criar-lhe dificuldade, obrigá-lo a confrontá-lo com os seus obstáculos físicos e psicológicos. Um bom aite cria permanentemente uma dificuldade ligeiramente superior ao nível do tori, para lhe mostrar o patamar a que pode ascender. O melhor aite expõe os medos do tori e mostra-lhe que, estando ao seu alcance enfrentá-los e eliminá-los, não passam de ilusões. Não estamos aqui perante o Avaliador / uke ou aite, e o Avaliado / tori?
Este vídeo expõe bem a diversidade de relações entre o aite / uke e o tori (link na imagem):
Imagem extraída do vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=kC85PrOHsRw&feature=emb_logo
Na cultura aikidoca nacional, costuma dizer-se que um dan (cinto negro) é um cinto branco teimoso. Traduz um princípio essencial para tudo na vida, mas sobretudo em Educação: é sempre possível fazer melhor, desde que estejamos dispostos a dar cada um dos passos desse caminho sempre oculto. Para isso, assumir a necessidade de Avaliação, farol da Educação, é condição essencial e de partida!
Não resisto a contar uma história, presenciada na primeira pessoa, que assisti há 9 anos, no dojo TenChi, em Sintra (entretanto encerrado): no meio de uma aula, de portas abertas, o Mestre Stobbaerts expunha (por palavras) a intenção certa a colocar num simples gesto da mão. Como se tivesse combinado com a Mãe Natureza, entra pela porta uma libelinha que poisa no tapete, a dois metros. O Mestre interrompe o que estava a fazer, empurra a libelinha para um dedo e depois para as costas da mão, e, de seguida, usa a libelinha (pousada por sua livre vontade nas costas da mão) para mostrar o mesmo gesto. Terminado o momento, pediu a uma aluna para devolver a libelinha ao exterior (para onde ela aceitou ir, embora com alguma relutância e um ou dois voos). O Mestre era um avaliador extraordinário: sabia recolher a informação que precisava e usava-a para transmitir uma determinada paz indescritível e a aspiração a atingir a perfeição do momento… Naquele caso, conseguiu avaliar o que precisaria para que a libelinha aceitasse a oferta de passeio!
No Aikido, a variedade de estilos e personalidades permite escolher o que melhor se adequa às nossas caraterísticas pessoais. No fundo, trata-se de escolher o caminho para aprender a respirar o movimento, a deslocar o centro do nosso corpo, a procurar o momento certo e a gestão do tempo e do ritmo, o gesto justo, a menor energia possível, a procurar o centro do parceiro (hara). Este trabalho não difere entre o uke e o tori: apenas a perspetiva é diferente, já que tanto um, como o outro, precisam de procurar a harmonia e a relação entre a energia exercida por ambos para poderem evoluir. Não tem o Avaliador de sentir o Avaliado, de o absorver, de sentir o que ele sente, de procurar o momento, a forma e os aspetos estratégicos para intervir? Não tem o Avaliador de procurar as feridas e fragilidades, tratando de as curar e evitando expo-las até o conseguir? Quando o Avaliador consegue que o Avaliado evolua, não consegue ele próprio crescer?
Uma homenagem do Mestre Manuel Galrinho (7.º dan) ao seu Mestre, já falecido, Georges Stobbaerts (8.º dan), é um bom exemplo de um modelo de prática que me permitiu desenterrar realidades interiores que desconhecia (link na imagem):
Imagem extraída do vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=hNVG8iteOGw
Deixo o melhor da metáfora para o fim: tal como o Aikido, a Avaliação do Sistema Educativo eleva-o progressivamente a um patamar melhor, com maior grau de perfeição, onde se quebraram algumas das correntes que anteriormente o amarravam e impediam de evoluir.
Numa evolução silenciosa e quase invisível, aula após aula, o Aikido constrói esse caminho, colidindo com o nosso interior para trazer ao de cima o melhor dele e derrubando as paredes que o impedem de sair… tal como a Avaliação faz ao Sistema Educativo, num processo revestido de grande Beleza!
Fontes:
Life and work of Georges Stobbaerts (n.d.). Georges Stobbaerts. Recuperado em 27 de janeiro de 2021, de http://www.georgesstobbaerts.com/pt/georges/
Henrique Martins. (2018, agosto, 18). EstagioVerao TenChi 2018. [Vídeo]. YouTube.
Manuel Galrinho. (2014, junho, 29). In memory. [Vídeo]. YouTube.
Noro Masamichi. (2014, abril, 25). Kinomichi Noro Masamichi Sensei 1995. [Vídeo]. YouTube.