segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Entre o velho e o novo… o que fica?

Já foi abordada a necessidade de transformar, revolucionar, o nosso sistema educativo. É quase como consensual a necessidade de mudar; no entanto, esse consenso termina quando se analisa o que mudar e como mudar. Aí começam as discordâncias: currículo, métodos, tudo, salas, número de alunos, quase nada, acabar com os livros, ter só digital, nada de livros nem digital… seria difícil encontrar um assunto que reúna maior número de opiniões divergentes. 

Escola do futuro: empresa portuguesa instala 10 mil manuais digitais nas  salas de aula – O Jornal Económico 

Fotografia obtida em https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/escola-do-futuro-empresa-portuguesa-instala-10-mil-manuais-digitais-nas-salas-de-aula-197620

É preciso, por isso, analisar, debater, priorizar. Mas é preciso definir, primeiro, um ponto de partida: se é verdade que é preciso alterar o que temos, não podemos incorrer no erro de diabolizar aquilo que temos e que construímos, com muito empenho e esforço. Em segundo lugar, é necessário assumir a importância de haver um debate amplo e que não pode ser realizado sem as escolas e os professores, e muito menos pode ser realizado contra as escolas e os professores (como, tantas vezes, infelizmente, acontece!).

Em sentido contraditório, é necessário refletir sobre o papel e lugar dos velhos métodos educativos. Há espaço para recorrer ao ábaco, para realizar cálculos? E aos dedos da mão? Muitos sistemas educativos de ponta recorrem em simultâneo a ambos os extremos (tecnologia antiga e de ponta) e com sucesso!

No século XXI, é preciso treinar as competências de memorização, quando o google responde? A resposta seria, sinteticamente, positiva. Se é unânime que não faz sentido decorar todos os rios de Portugal ou a posição dos elementos químicos na tabela periódica, não podemos ignorar que a compreensão passa também pela assimilação – não aquela memorização de 10 minutos antes do teste, mas aquela que, memorizando, relaciona aspetos que à primeira vista seriam distintos ou desligados. Essa capacidade de construir conhecimento não se faz sem a memorização, que tem de ser trabalhada em conjunto com o raciocínio abstrato, a capacidade para resolver problemas e outras.

  

Fotografia obtida em https://ionline.sapo.pt/artigo/670492/como-era-a-escola-de-antigamente-?seccao=Portugal

Noutra vertente, faz sentido aprender a somar, dividir ou calcular logaritmos quando qualquer calculadora o faz, sem nos cansarmos e sem medo de errarmos? Estudos indicam que a aprendizagem do cálculo ajuda à compreensão daquilo que é a quantidade, a ordem de grandeza, o significado dos números, entre outros aspetos estruturais para o conhecimento.

Há assim um outro desafio a considerar nesta mudança: encontrar o equilíbrio, a harmonia e a integração do novo no velho e vice-versa. Não se constrói um sistema educativo de futuro destruindo na íntegra o que hoje existe. Teremos assim de, simultaneamente, recusar o medo do desconhecido e o aventureirismo que ignora as lições do passado!

domingo, 15 de novembro de 2020

Tempo de mudança, Tempo para Mudar!

Parece ser unânime a opinião de que a realidade e as práticas do nosso sistema educativo têm de ser repensadas e adequadas às atuais exigências e prevendo, na medida do possível, os futuros desafios. A escola que temos tem séculos de existência, havendo enorme evolução teórico-prática desde o século XX. Foi, e é, uma instituição essencial na construção da sociedade que temos e queremos ter. Isso não significa que não esteja desadequada ao momento atual (e que mais ainda ficará no futuro, caso não se repense o seu modelo de funcionamento). 

 

Imagem obtida em http://cronicaspedagogicas.blogspot.com/2015/11/como-o-curriculo-escolar-faz-diferenca.html

Na realidade social, económica e cultural atual, a escola é mais facilmente caraterizada como um lugar estático, quase uma fábrica de produção em massa, que se ajusta a essa realidade a um ritmo muito inferior ao das mudanças individuais e sociais. No mesmo sentido, a própria sociedade acompanha este desfasamento, vivendo entre as antigas e as atuais exigências, ignorando as necessidades e projetos de cada indivíduo e, portanto, de cada aluno.

Há uma tendência para padronizar comportamentos e projetos de vida, quando o caminho ditado tanto pela evolução social, como pelas necessidades económicas, é, no plano pessoal / individual, a valorização da criatividade, da diversidade, das caraterísticas pessoais, e, no plano social, atribuir ao indivíduo o papel central no processo educativo. Acresce ainda uma lacuna na educação para a cidadania e os direitos humanos, havendo, pelo contrário, a negativa valorização da competição e da anulação das caraterísticas pessoais de cada aluno. Precisamos assim de abrir a porta para a reflexão sobre qual a escola e a educação que temos, contrapondo-a à escola e à educação que devemos, enquanto sociedade, construir.

Os currículos escolares obedecem ainda a lógicas quase ancestrais, de divisão das áreas do conhecimento, estimulando-se a interdisciplinariedade mas remetendo-a para um papel voluntarista dos docentes, não se dando reais condições para esse processo. Assume-se a importância de promover Direitos Humanos, Inclusão, Educação para a Cidadania e Educação para a Democracia, entre outras vertentes, mas não se integram as competências inerentes no currículo. Mais se assemelha essas competências a velhos post-its que se colam em sítios diferentes das orientações curriculares, na esperança de recordar que é preciso fazer algo e que estes não caiam. 

É preciso repensar estratégias, competências, conteúdos, currículos, paradigmas. É preciso por o Aluno e Cada Aluno no centro do seu processo educativo, sem que isso signifique deixá-lo fazer o que quiser ou abandoná-lo à sua sorte. É preciso ouvi-lo e assumir que ele Quer crescer e contribuir, mas também que ele Pode fazê-lo! 

O que é então preciso para mudar, e como fazê-lo? Desde a Teoria da Relatividade que sabemos que nenhum processo pode ocorrer instantaneamente; sabemos também, pelas leis da dialética, que nenhum processo ocorre de forma perfeitamente isolada – é antes parte de um todo, com diferentes aspetos integrados e possivelmente contraditórios, que estão em constante movimento (mudança). E é assim que um processo de transformação, de ruptura ou de mudança, deve ser analisado, pensado e compreendido (a priori e a posteriori).

No entanto, parece que, nos gabinetes onde ocorrem as decisões políticas, a pressa para mudar faz esquecer muitas vezes três aspetos fundamentais, presentes tanto no processo decisivo como na implementação de qualquer transformação:

  • é preciso definir um momento inicial e final adequados, que estabeleçam o intervalo de tempo entre o momento em que se inicia o processo de debate e se analisam os resultados do que se implementou (estando, no decurso desses dois momentos, o próprio debate, as conclusões, as decisões, a implementação, a recolha de informação referente às mudanças ocorridas e a avaliação das mesmas); 
  • não se podem queimar etapas, nomeadamente a reflexão profunda (que tem de ser socialmente alargada e substancialmente participada) e o processo de implementação (que terá de sair, efetivamente, do papel);
  • meios e condições, que forem necessários e possíveis de disponibilizar, para o debate e para a implementação das alterações.

Aparentemente, as mudanças educativas ocorrem sem duas ou mais destas condições. Nos últimos 16 anos já ocorreram, pelo menos, 10 grandes alterações no plano legislativo: 3 Estatutos de Carreira Docente com diferenças assinaláveis; 4 paradigmas curriculares diferentes; alterações substanciais no plano da formação inicial de docentes, no modelo de gestão e na organização das escolas. Surgiram também inúmeras alterações de menor peso, mas às quais tem de se dar resposta prática, no terreno, em tempo útil, com todo o esforço que isso implica.

 

Imagem obtida em https://pt.linkedin.com/pulse/o-curr%C3%ADculo-escolar-referenciado-em-compet%C3%AAncias-e-para-rodrigues

As alterações surgem nas escolas a velocidades impossíveis de acompanhar: antes de estarem bem implementadas e “oleadas”, surgem outras, que contradizem ou alteram significativamente as anteriores. É ainda relevante que surjam quase sempre sem avaliação do que está feito, ou sem essa avaliação ser tornada pública, tanto para as comunidades educativas, como para o público em geral.

Será, portanto, de exigir um grande trabalho, de debate amplo, sobre vários assuntos: 

  • O que pretendemos para a educação? 
  • Quais os principais desafios a que temos de responder? 
  • Que meios humanos e técnicos precisamos? 
  • Que currículo será adequado? 
  • Como inverter o envelhecimento das escolas? 
  • Como atrair, para a docência, os que têm maior potencial? 

Na infindável fonte de ironia portuguesa, diz-se que para se manter tudo na mesma nomeia-se uma comissão. Nas escolas diz-se que não é possível mudanças no sistema educativo sem as escolas e sem os professores, e muito menos contra ambos. Pois que se mude, mas com professores e alunos. Uns e outros são os principais interessados e os principais veículos. A única coisa que está em jogo é o futuro da Humanidade!

A Avaliação é uma grande e bela aula de Aikido…

  O perigo reside na mecanização do gesto em benefício da tecnicidade e da eficácia; a perda da alma do movimento e a ausência de reflexão ...