sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Mudar algo, para que nada fique na mesma!

A Educação, o Ensino e a Escola são três assuntos simultaneamente pouco dados a consensos e que geradores de paixões. Curiosamente, levantam-se também apenas três opiniões essenciais socialmente unânimes sobre os mesmos, bem expressas por Alvin Toffler e Heidi Toffler, no vídeo “Alvin e Heidi Toffter criticam o Sistema Educativo” (2008) e Ken Robinson (2006 e 2010):
  • têm de preparar, hoje, os adultos de amanhã, para os desafios que estes enfrentarão;
  • apresentam um enorme hiato, uma distância por vezes dramática, relativamente aos seus Alunos;
  • precisam, urgentemente, de mudanças.


Imagem de um relógio atómico, obtida em https://www.tecmundo.com.br/ciencia/122810-relogio-atomico-preciso-mundo-funcionar-bilhoes-anos.htm


Infelizmente, apenas a primeira surge pela positiva, ou seja, aponta um caminho a seguir; as duas restantes dão um contributo menor à definição do que deve ser a Escola, porque surgem pela negativa – recusam a realidade atual. A acrescentar dificuldade a esta dura tarefa, a unanimidade termina quando se inicia a definir que mudanças devem ser empreendidas e, dentro dessas, quais são as prioridades.

Como educar para a mudança, quando esta ocorre a uma velocidade impossível de acompanhar? O “professor médio” do Sistema Educativo foi formado numa Sociedade ainda dominada pelo Papel e pelo Analógico, em que computadores eram reservados a empresas especializadas em alguns assuntos “obscuros”, a internet era assunto militar e da ficção científica, a informação surgia quase só por livros, jornais, rádio e televisão. Pelo contrário, os alunos do presente vivem tecnologia como respiram oxigénio. Ela está em todo o lado. E nunca sairá. Apenas mudará, e, novamente, a um ritmo impossível de acompanhar. Novamente, Robinson (2006) expressou esta ideia de forma bastante assertiva:

Nós temos um enorme interesse nisto [no Ensino e na Educação], em parte porque a educação deve levar-nos a um futuro que ainda não conseguimos segurar. Se pensarem nisto, as crianças que começam a escola este ano reformar-se-ão em 2065. Ninguém tem ideia, apesar de todo o conhecimento demonstrado nos últimos quatro dias, de como o mundo será daqui a cinco anos. E, no entanto, pretendemos educá-los para isso. A imprevisibilidade é extraordinária.

Com a infinita combinação de criatividade, ironia e sarcasmo que carateriza o povo português, alguém criou uma página onde se “termina” a internet:
O Fim da Internet
Parabéns, acaba de chegar à última página da internet.
A internet termina aqui. Esperamos que a navegação tenha sido do seu agrado.
Por favor desligue o seu computador e dedique-se a alguma actividade productiva.
 
É, evidentemente, humor feito, provavelmente, por alguém cuja vida profissional se desloca em torno da informática e das novas tecnologias. Demonstra, por oposição, que a internet e as novas tecnologias não têm fim à vista: até para (falsamente) decretar o fim da Internet se precisou de uma declaração desconhecida colocada algures num cantinho remoto desse espaço incontrolável. Teria algum efeito humorístico a mesma declaração feita através da rádio, de um livro ou da televisão? 
 
Sabemos que as crianças que hoje saem da Escola terão uma vida dominada pela tecnologia, pela informática, por software e instrumentos que ainda não foram imaginados. Será difícil descobrir um canto do país em que alguém tenha uma profissão que não envolva essas ferramentas. Paradoxalmente, essas mesmas ferramentas têm, em simultâneo, enormes potenciais de progresso e de atraso civilizacional. Veja-se o cyberbullying, em franco crescimento, e os jogos surgidos em redes sociais onde, por desafios crescentes, adolescentes são levados ao suicídio. Veja-se os algoritmos desenhados para conhecer o utilizador que, facilmente, se tornam num Big Brother, sem convite ou adesão consciente, e se tornam em projetos para induzir a comprar produtos desnecessários. Veja-se a explosão de fake news. No reverso da medalha, a aproximação virtual de pessoas em posições do globo diametralmente opostas; a economia global; a produção de conhecimento feita colaborativamente. A vacina da COVID 19 é o exemplo mais paradigmático e sintético do poder que está contido na combinação dialética destas três alavancas.

Num mundo onde se promove o efémero, se faz negócio apostando em simultâneo na disseminação tecnológica e na iliteracia digital, a Educação tem de ter, no seu centro, a informática. Num sistema produtivo e económico em que o serralheiro de amanhã trabalha sentado em frente ao computador e tem um curso superior de desenho industrial, o Ensino tem de passar pela adaptação, pela tecnologia, pela resiliência, pela criatividade. Tem de permitir aos atuais alunos conseguir distinguir uma boa ferramenta informática de uma má ferramenta, da mesma forma que temos de saber distinguir um bom livro de um mau livro. Tem de permitir aos alunos acederem a 100 páginas de internet sobre o mesmo assunto mas saber escolher apenas aquele parágrafo que é relevante ou factual. A Educação do Século XXI terá de criar o mecanismo para, tendo acesso ao mais fácil, preferir o mais correto.

A Escola tem de preparar os alunos para enfrentar, com sucesso, estes desafios. Sem querer dramatizar em excesso, pode estar em jogo, apenas, o futuro da Humanidade.
 
 
 
Referências:

Robinson, K. (2006, fevereiro). Ken Robinson: Como as escolas matam a criatividade. [Vídeo]. https://www.ted.com/talks/sir_ken_robinson_do_schools_kill_creativity?language=pt#t-145932

Robinson, K. (2010, outubro, 14). Ken Robinson: Changing Education Paradigms [deo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=zDZFcDGpL4U

Toffler, A., & Toffler, A. (2008, junho, 26). Alvin e Heidi Toffler criticam o Sistema Educativo. [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?time_continue=7&v=__ejlrSeLbM

O fim da internet. https://sites.google.com/site/ultimapaginainternet/ Consultado em 4 de dezembro de 2020

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