Já foi abordada a necessidade de transformar, revolucionar, o nosso sistema educativo. É quase como consensual a necessidade de mudar; no entanto, esse consenso termina quando se analisa o que mudar e como mudar. Aí começam as discordâncias: currículo, métodos, tudo, salas, número de alunos, quase nada, acabar com os livros, ter só digital, nada de livros nem digital… seria difícil encontrar um assunto que reúna maior número de opiniões divergentes.
Fotografia obtida em https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/escola-do-futuro-empresa-portuguesa-instala-10-mil-manuais-digitais-nas-salas-de-aula-197620
É preciso, por isso, analisar, debater, priorizar. Mas é preciso definir, primeiro, um ponto de partida: se é verdade que é preciso alterar o que temos, não podemos incorrer no erro de diabolizar aquilo que temos e que construímos, com muito empenho e esforço. Em segundo lugar, é necessário assumir a importância de haver um debate amplo e que não pode ser realizado sem as escolas e os professores, e muito menos pode ser realizado contra as escolas e os professores (como, tantas vezes, infelizmente, acontece!).
Em sentido contraditório, é necessário refletir sobre o papel e lugar dos velhos métodos educativos. Há espaço para recorrer ao ábaco, para realizar cálculos? E aos dedos da mão? Muitos sistemas educativos de ponta recorrem em simultâneo a ambos os extremos (tecnologia antiga e de ponta) e com sucesso!
No século XXI, é preciso treinar as competências de memorização, quando o google responde? A resposta seria, sinteticamente, positiva. Se é unânime que não faz sentido decorar todos os rios de Portugal ou a posição dos elementos químicos na tabela periódica, não podemos ignorar que a compreensão passa também pela assimilação – não aquela memorização de 10 minutos antes do teste, mas aquela que, memorizando, relaciona aspetos que à primeira vista seriam distintos ou desligados. Essa capacidade de construir conhecimento não se faz sem a memorização, que tem de ser trabalhada em conjunto com o raciocínio abstrato, a capacidade para resolver problemas e outras.
Fotografia obtida em https://ionline.sapo.pt/artigo/670492/como-era-a-escola-de-antigamente-?seccao=Portugal
Noutra vertente, faz sentido aprender a somar, dividir ou calcular logaritmos quando qualquer calculadora o faz, sem nos cansarmos e sem medo de errarmos? Estudos indicam que a aprendizagem do cálculo ajuda à compreensão daquilo que é a quantidade, a ordem de grandeza, o significado dos números, entre outros aspetos estruturais para o conhecimento.
Há assim um outro desafio a considerar nesta mudança: encontrar o equilíbrio, a harmonia e a integração do novo no velho e vice-versa. Não se constrói um sistema educativo de futuro destruindo na íntegra o que hoje existe. Teremos assim de, simultaneamente, recusar o medo do desconhecido e o aventureirismo que ignora as lições do passado!